Sim, aula, infelizmente.
Tediosos suspiros alheios de fatigados tutores.Já ouvi o que dizem diversas vezes.
Animadoras conversas com colegas tal qual o mais cinza dos nublados dias.
Não prestam atenção em mim nem eu neles.
Tudo gira ao redor do flerte.Ainda não é a hora.Sabemos disso.
Fim da aula.
Metamorfose global.
Por instantes, no caminho até o recanto dos boêmios(por assim dizer), percebo a transformação.
Frios e distantes rostos tornam-se calorosos sorrisos convidativos, as vezes regados de propostas indecentes e incomuns-ao mundo real, não ao mundo boêmio.
Chegamos ao covil.
Lá não há filho, advogado, namorado.Há o boêmio.
Pelo mais despresível instante, apagados são os traumas e feridas.Problemas enxarcados pelo álcool são.
Companias apreciaveis distraem-me quando penso.Mãos, seios, lábios e o que mais me aprouver afastam-me do mundo real-e suas chagas.
Ao decorrer de minha animalidade, passa-se o tempo.
O adocidado vinho é, agora, amargo.
Beijos outrora calorosos e animalescos, agora são rotina.
Começo a lembrar.
Hora de ir embora.
Meu escuro quarto aguarda-me.
Entre o infinito oceano de livros e processos, meu leito chama.
Despido, olho-me no espelho.
Lágrimas escorrem pelo meu não menos imponente e orgulhoso olhar.
Ainda que sozinho, o vício de manter as aparências persiste.
Dilacera-se minh'alma por saber que não nasci para a noite.
Não gosto.
Não quero.
Minha trêmula mão toca meu peito.
Quero libertar-me.
Quero mudança.
Quero lançar-me por entre os braços de alguém que retire-me do tédio que vivo.
Recordo-me, estou preso.
Preso a aparência que devo manter.
Preso ao personagem que devo interpretar.
O boêmio advogado.Sempre pronto a sair com seu chefe.


